sábado , 21 maio 2022
Violência persiste seis anos após implantação da torcida única em SP

Violência persiste seis anos após implantação da torcida única em SP

PAULO EDUARDO DIAS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Anunciada em abril de 2016 pelo então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, hoje ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), a torcida única nos clássicos paulistas vai completar seis anos. No período, casos de violência ligados ao futebol continuaram sendo registrados com frequência nos dias de jogos entre rivais.


A maior parte das ocorrências agora acontece longe dos estádios. E nem os próprios palcos das partidas se viram livres de episódios, mesmo com a presença dos torcedores de apenas uma equipe. No mês passado, por exemplo, o campo foi invadido em um São Paulo x Palmeiras com público 100% tricolor. Ao fim da confusão, uma faca foi achada no gramado.

Ninguém foi ferido pelo objeto, que, segundo apuração da polícia, foi arremessado da arquibancada. Mas houve incidentes de consequências bem mais graves ao longo dos últimos anos, com ao menos quatro mortes. A recorrência do problema levou a questionamentos sobre a eficácia da medida, mas o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) insiste que ela é necessária.

A FPF (Federação Paulista de Futebol) se diz contrária à restrição e informa que chegou a enviar pedido formal ao MP para que a proposta fosse revista. No entanto, como tem ocorrido todo ano, recebeu a recomendação da promotoria e informou aos clubes que a temporada 2022 é mais uma com torcida única nos clássicos.

E não só nos duelos entre rivais. Guarani e Ponte Preta, desde 2019, juntaram-se a Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos no grupo daqueles cujos apoiadores não podem se encontrar -nas arenas.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, a torcida única “propiciou a diminuição de 100% das ocorrências dentro de estádios e 90% nos arredores, além da ampliação do policiamento dentro e fora dos estádios”. Já o MP deixou claro que não pretende revisar a determinação no curto prazo.

“Há justo receio por parte das autoridades de que a liberação da torcida visitante possa ocasionar um incontrolável aumento da violência antes e após os jogos”, escreveu à reportagem o promotor Roberto Bacal.

A medida, porém, é impopular entre os torcedores. Renan Bohus, advogado que defende diversas torcidas organizadas pelo Brasil, como a corintiana Gaviões da Fiel, entende que a restrição não resolve o problema. Ao contrário, diz ele, agrava a situação.

“O Estado, através da PM, perde o controle de onde os torcedores estão localizados, uma vez que, em jogos com duas torcidas, os torcedores ficavam centralizados em local determinado pelo Batalhão de Choque”, afirmou.

“Basta ver dados sobre brigas envolvendo torcedores em jogo de torcida única, e percebemos que elas acontecem em locais diversos, dezenas ou centenas de quilômetros do evento esportivo”, acrescentou o advogado, especialista em Estatuto do Torcedor. Para ele, a determinação é inconstitucional “porque viola o direito do torcedor de ir e vir”.

A mais recente das confusões foi o caso já citado do último mês. Na semifinal da Copinha entre São Paulo e Palmeiras, houve invasão de três homens ao gramado da Arena Barueri. São-paulinos, eles chegaram a trocar empurrões com atletas alviverdes.

A faca encontrada no campo não machucou ninguém, mas, após a partida, palmeirenses e são-paulinos entraram em confronto na estação Guaianases da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Ao menos uma pessoa ficou ferida. A estação fica a 70 quilômetros de onde ocorreu o jogo.

Dois meses antes, em 18 de novembro, outra briga envolvendo as duas torcidas foi registrada na estação Presidente Altino da CPTM, em Osasco. Ao menos duas pessoas ficaram feridas. Em outubro, corintianos e são-paulinos haviam brigado no centro de Diadema.

Outro caso emblemático completou um ano no último dia 30. Integrantes da Mancha Alvi Verde, principal organizada do Palmeiras, e membros da Gaviões da Fiel, a maior uniformizada do Corinthians, brigaram no dia da final da Copa Libertadores. A partida não envolvia o time alvinegro da capital. Era dia de Palmeiras x Santos, no Maracanã, Rio de Janeiro.

O resultado da briga, ocorrida no Sacomã, bairro da zona sul paulistana, foi a morte a tiros de um corintiano, Wallace Thomaz, 29, conhecido como Pirata. Ele foi socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Outro alvinegro baleado no mesmo conflito conseguiu se recuperar.

Segundo a denúncia do MP, o autor do disparo fatal foi Sidney Teixeira Nicolau. “Armado com a pistola Taurus 380 nas mãos e, utilizando-se do ardil de se esconder atrás de uma van escolar, passou a efetuar disparos contra os torcedores corintianos”, escreveu em sua petição o promotor João Carlos Calsavara, com base na investigação da Polícia Civil.

Para o MP, os vídeos mostraram Nicolau atirando e não foram a única prova. A comparação balística realizada pelo Instituto de Criminalística apontou que a arma entregue pelo palmeirense foi a mesma da qual partiu o disparo contra Thomaz. Nicolau se entregou em março, mas foi solto no final de novembro.

“Eis que, como se trata de confronto de torcidas organizadas, futuramente pode ocorrer novamente, e se usar esse processo como referência. Respeito a decisão do juiz, mas não me conformo com ela, por isso utilizei o recurso legal cabível para fazer o réu retornar à prisão e aguardar o julgamento encarcerado”, disse Calsavara, demonstrando preocupação com a impunidade.

Procurado pela reportagem, o defensor de Sidney, o advogado criminalista Jacob Filho, afirmou que a liberdade do palmeirense é um direito constitucional e não gera impunidade.

“Antes desse caso, havia brigas? Outros torcedores foram colocados em liberdade, inocentados ou culpados. Isso inibiu que brigas acontecessem? Não. As brigas existiam e continuarão existindo, enquanto os torcedores não se conscientizarem -e não importa a equipe- de que a violência não é a solução”, disse Filho.

No mesmo entrevero, outro palmeirense também foi denunciado por disparo de arma de fogo. O homem, um atirador esportivo registrado, confirmou ter efetuado disparos com sua pistola legalizada.

Além da de Pirata, ao menos outras três mortes ocorreram com a torcida única em vigor. O corintiano Danilo da Silva Santos tinha 30 anos quando foi espancado por santistas em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, em 4 de março de 2018. Ele não resistiu.

O palmeirense Leandro de Paula Zanho, 38, morreu em 13 de julho de 2017, ao ser esfaqueado por corintianos na avenida General Olímpio da Silveira, na região central, após assistir a jogo no Allianz Parque. Depois de ouvir gozações de corintianos que trabalhavam em uma borracharia, o palmeirense deixou o carro em que estava, e teve início luta corporal. Dois corintianos, que alegaram legítima defesa, foram condenados a cinco anos de prisão.

Daniel Jones Veloso, 22, o Dan Jones, foi a primeira vítima registrada já com a torcida única em vigor. O corintiano foi espancado com barras de ferro por palmeirenses, em 17 de setembro de 2016, em Itapevi. Ele estava na companhia da namorada, quando foi cercado por cinco membros de organizada do Palmeiras. A mulher conseguiu correr; ele, não.

O julgamento dos acusados ocorreu recentemente, e quatro deles foram condenados a 24 anos de prisão.

A reportagem questionou os quatro grandes clubes do estado sobre a torcida única. Só o Corinthians respondeu, pedindo que a restrição seja revista.

“O Corinthians não é favorável à medida de manutenção de torcida única em clássicos nos estádios de São Paulo, pela evidente ineficácia da medida, que, como era de se esperar, não resolveu conflitos”, diz a nota enviada pelo clube do Parque São Jorge.

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