quarta-feira , 18 maio 2022
Hidroxicloroquina encalha no Exército, apesar de defesa do 'kit Covid'

Hidroxicloroquina encalha no Exército, apesar de defesa do ‘kit Covid’

MATEUS VARGAS
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Apesar de esforços do governo de Jair Bolsonaro (PL) para boicotar diretrizes de tratamento anti-kit Covid, os lotes de hidroxicloroquina doados por Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos, deixaram de servir ao combate à pandemia no SUS.


De 3 milhões de comprimidos que chegaram ao Brasil em junho de 2020, menos de 1 milhão foi aplicado contra o novo coronavírus.

No Exército, 745 mil doses da droga estão encalhadas. Cerca de 255 mil unidades haviam sido distribuídas a hospitais militares para o tratamento sem eficácia.
Jair Bolsonaro segura uma caixa de cloroquina, em frente ao Palácio da Alvorada, após seu teste dar positivo para Covid-19 Reprodução da página de Jair Já o Ministério da Saúde, que teve 2 milhões de doses da hidroxicloroquina de Trump em mãos, destinou cerca de 600 mil comprimidos para cidades que pediram a droga contra a Covid.

Depois, a pasta mandou o restante (1,4 milhão de unidades) para o combate a doenças previstas na bula, como lúpus e artrite reumatoide.
Mesmo após parar de distribuir a droga no SUS contra a pandemia, o governo insiste em não se posicionar contra o uso desses medicamentos e Bolsonaro segue distorcendo dados para estimular o uso do chamado “kit Covid”.

O Ministério da Saúde rejeitou, em janeiro, diretrizes de tratamento para a crise sanitária que contraindicavam essas drogas.

O secretário de Ciência e Tecnologia da pasta, Hélio Angotti Neto, ainda assinou nota que defendia a hidroxicloroquina e afirmava que as vacinas não têm segurança e eficácia.

As diretrizes sobre a Covid-19, se aprovadas, não teriam poder de proibir médicos de utilizarem medicamentos sem eficácia, mas representariam uma mancha às bandeiras negacionistas de Bolsonaro. Isso porque o governo federal, por meio do Ministério da Saúde, passaria a reconhecer as orientações contrárias ao chamado tratamento precoce.

A ideia do governo era usar a hidroxicloroquina enviada pelo governo dos EUA e pela farmacêutica Sandoz como pilar da política de combate à Covid-19 a partir do segundo semestre de 2020.

A aposta para o período anterior da crise sanitária havia sido a cloroquina (medicamento de efeito parecido, mas composição diferente) feita no Laboratório do Exército ou desviada do programa de malária do SUS. Mais de 5,4 milhões de unidades do medicamento foram entregues no SUS, mesmo sem eficácia.

Mas os lotes de hidroxicloroquina enviados ao Brasil pelo governo Trump a Bolsonaro encontraram barreiras para serem despejados na rede pública.

A carga chegou ao país dividida em tubos com 100 comprimidos. O governo precisou de aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para fracionar a droga em caixas menores e repassou o custo da operação aos estados e municípios que pedissem os medicamentos.

Gestores públicos ainda perderam o interesse no tratamento com o chamado kit Covid, apontado como ineficaz por sociedades médicas especializadas e entidades como a OMS (Organização Mundial de Saúde) poucos meses após o começo da pandemia.

A distribuição dos medicamentos ainda virou alvo de apurações de órgãos de controle, MPF (Ministério Público Federal) e de ações no STF (Supremo Tribunal Federal).

O estímulo ao “kit Covid” foi citado em pedidos de indiciamento feitos pela CPI da Covid no Senado. Para fugir de punições, o governo Bolsonaro também modulou o discurso.

Em janeiro de 2021, após ser criticado por levar drogas sem eficácia ao Amazonas, quando o estado entrava em colapso por falta de oxigênio, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello passou a afirmar que jamais estimulou o uso desses medicamentos.

A última entrega do Ministério da Saúde da hidroxicloroquina de Trump para tratamento da Covid foi feita em abril de 2021, já na gestão de Marcelo Queiroga.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, prefeitos passaram a pedir a devolução dos lotes ao governo Bolsonaro quando perderam interesse pela droga.

Desde o fim de 2021, o governo tenta se livrar do estoque do Exército, oferecendo a droga a estados que querem usá-la em tratamentos indicados na bula, o que não inclui a Covid-19.

Mesmo com comprimidos do “kit Covid” encalhados, porém, Bolsonaro e seus auxiliares ainda tentaram aumentar o estoque e os gastos para a entrega no SUS.
Documentos entregues à CPI mostram que o governo avaliou comprar 5 milhões de doses da hidroxicloroquina da Índia, em abril de 2020, mas desistiu do negócio em outubro, quando já estocava a doação de Trump.

De julho a novembro do mesmo ano, o Ministério da Saúde ainda abriu um processo para inserir a hidroxicloroquina e o antibiótico azitromicina no programa Farmácia Popular, que dá descontos ou entrega de graça medicamentos principalmente para doenças prevalentes.

A iniciativa partiu de Angotti, o mesmo secretário que vetou recentemente a diretriz anticloroquina, e uma minuta de portaria chegou a ser preparada por Pazuello.

A ideia, que não se concretizou, era gastar até R$ 250 milhões para pagar farmácias da rede privada credenciadas ao programa, que entregariam o “kit Covid” de graça.

Em nota, o Exército confirmou o estoque de cerca de 775 mil comprimidos de hidroxicloroquina.

Já a Saúde disse que solicitou aos estados que manifestassem “interesse em receber o medicamento [encalhado no Exército], a título de doação, para uso no tratamento de doenças como lúpus e artrite reumatoide”.

A pasta também disse que usará a cloroquina que será fabricada pela Fiocruz no programa de malária neste ano. O laboratório deve entregar cerca de 2,8 milhões de doses

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