quinta-feira , 18 agosto 2022
Giorgia Meloni desponta para assumir o poder na Itália entre pós-fascismo e neofascismo

Giorgia Meloni desponta para assumir o poder na Itália entre pós-fascismo e neofascismo

MICHELE OLIVEIRA
MILÃO, ITÁLIA – A largada para a trajetória que pode culminar com a chegada de Giorgia Meloni, 45, ao cargo de primeira-ministra da Itália, a primeira mulher como chefe de governo da terceira economia da União Europeia, foi dada há quase três anos, em outubro de 2019.

Em um comício em Roma, junto com os mesmos dois aliados que a acompanham na disputa das eleições do dia 25 de setembro -Matteo Salvini, da Liga, e Silvio Berlusconi, do Força, Itália-, Meloni subiu ao palco para falar a uma plateia de cerca de 50 mil pessoas.

Com sua voz forte, por vezes aos berros, apresentou a essência de suas bandeiras. Falou contra a imigração, a islamização da Europa, a adoção por homossexuais, a legalização das drogas, a evasão fiscal das multinacionais, dos gigantes da web, dos chineses e contra a submissão italiana aos interesses de França e Alemanha. “Sou Giorgia. Uma mulher, uma mãe, uma cristã.”

Foi um discurso tão emblemático que a própria Meloni o considera um ponto de inflexão. “Não podia prever que aquelas palavras pudessem ter um eco enorme”, escreveu na autobiografia lançada em 2021, com tiragem inicial de 100 mil cópias e por semanas na lista dos mais vendidos.

Naquela época, a Itália tinha acabado de passar pela enésima queda de governo. Salvini havia forçado o desmoronamento da coalizão com o populista Movimento 5 Estrelas (M5S), que sustentava o então premiê Giuseppe Conte.

As forças políticas se reorganizaram, e Conte montou um novo governo, agora com o Partido Democrático, de centro-esquerda. A Liga, de ultradireita, deixava o governo com 36,8% nas pesquisas de intenção de voto, seu auge desde a eleição, em 2018. O Irmãos da Itália, fundado por Meloni em 2012, somava 6,4%.

Depois daquele discurso de 2019, as curvas dos dois partidos -e as imagens de seus líderes- começaram a traçar dinâmicas opostas. A Liga despencou para os 13,7% atuais, e o Irmãos da Itália ocupa o primeiro lugar, com 23,3%.

“Ela se aproveitou muito da crise da Liga e de imagem do Salvini, que é um personagem despreparado, imprudente e que muda de ideia continuamente”, afirma a cientista política Sofia Ventura, professora da Universidade de Bolonha. “Meloni substituiu isso por uma imagem muito eficaz e convincente. Ela é mais preparada, estudiosa, coerente e não é impulsiva.”

Além disso, enquanto Salvini voltou a compor, no começo de 2021, a maioria parlamentar em apoio a Mario Draghi, confundindo ainda mais o seu eleitorado, Meloni sempre se manteve na oposição.

Na última quarta (27), os dois, junto com Berlusconi, confirmaram a aliança de direita que vai disputar as eleições, antecipadas em alguns meses depois que Draghi perdeu o apoio no Parlamento de três partidos e pediu demissão. A indicação do nome que vai substituí-lo será feita pelo partido que obtiver a maioria dos votos, segundo acordo anunciado pelos líderes. Hoje, ao que indicam as pesquisas, é provável que a decisão caberá à única mulher do trio.

Giorgia Meloni nasceu em Roma e cresceu no bairro popular de Garbatella. Segundo conta no livro, viveu uma infância com dinheiro contado, em que ela e a irmã mais velha foram criadas somente pela mãe, com a ajuda dos avós. O pai, quando ela ainda era pequena, mudou-se para as ilhas Canárias, na Espanha.

As passagens sobre a vida privada são acompanhadas de trechos em que Meloni expressa suas convicções políticas. Narra com detalhes que a mãe, já em um relacionamento deteriorado, chegou a se programar para interromper a gravidez, tendo desistido do aborto pouco antes dos exames clínicos necessários.

Páginas adiante, ela reforça: “Apesar da ausência do meu pai, tive uma família que me dava todo o amor necessário. Digo isso porque, enquanto defendo a família natural fundada no casamento -acredito que o Estado deva incentivar a forma de união mais sólida possível, pelos filhos-, sou testemunha de como, mesmo em uma família sem um dos genitores, é possível crescer feliz”.

A entrada na política aconteceu cedo, aos 15 anos, quando a Itália vivia os meses mais conturbados da Operação Mãos Limpas, que revelou, em 1992, o envolvimento do sistema político em esquemas de corrupção e que teve como efeito o fim dos principais partidos tradicionais.

A escolha de Meloni foi pela seção juvenil do Movimento Social Italiano (MSI), um partido fundado em 1946 por integrantes dos últimos anos do regime fascista de Benito Mussolini. “O MSI era alheio à roubalheira e à corrupção que víamos descobertas”, escreve Meloni, que afirma ter tomado a decisão “por puro instinto”.

É desse prólogo que analistas e historiadores a identificam ora como uma política pós-fascista, termo usado para definir o movimento que derivou do fascismo e que buscou diálogo com forças da direita conservadora moderada, ora como neofascista, em que o período segue como ideologia inspiradora. “É um debate em curso, com a maioria se inclinando para o pós-fascismo”, diz o analista político Valerio Alfonso Bruno, membro do Centro de Análise da Direita Radical, no Reino Unido.

Além das experiências pregressas e da participação de aliados em eventos que comemoram datas do fascismo, outro argumento reside no logotipo do Irmãos da Itália, uma chama com as três cores da bandeira, herdada do MSI. “O relacionamento com o fascismo nunca é tratado de maneira direta. Mas se ela e o partido quisessem realmente eliminar essa ambiguidade, por que manter a chama no logo?”, questiona Bruno.

Em uma análise publicada nesta semana, Ventura escreve que, segundo as definições acadêmicas, o Irmãos da Itália se situa entre extrema direita, hostil à democracia, e direita radical, que aceita algumas regras fundamentais democráticas, mas se opõe a elementos como a tutela do Estado de Direito. “Mas que existe uma ligação afetiva e de símbolos, senão com o fascismo, certamente com o partido pós-fascista, é inegável”, afirma à reportagem.

Depois de anos como militante do movimento estudantil, no qual aperfeiçoou a retórica de palavras claras e contundentes que envolve seus discursos, Meloni foi eleita, aos 29 anos, como deputada federal, pelo partido Aliança Nacional, formado por membros do MSI. Logo, assumiu uma das vice-presidências da Câmara, Casa na qual hoje está no quarto mandato.

Dois anos depois, tornou-se a ministra mais jovem do país, ao assumir a pasta da Juventude sob o quarto governo Berlusconi (2008-2011). No período, seu partido se fundiu com o Força, Itália, do então premiê, com o nome de Povo da Liberdade. Em 2012, motivada pelo declínio político de Berlusconi, criou a própria agremiação. Com cerca de 130 mil filiados, o Irmãos da Itália possui 21 cadeiras no Senado e 37 na Câmara.

A mensagem política da legenda é parecida com a dos demais partidos de direita radical populista da Europa, como a Reunião Nacional, da francesa Marine Le Pen. Discurso nacionalista, com ênfase contra a imigração, além da propagação de teorias conspiratórias, como a que defende a existência de uma elite econômica “globalista” que procura substituir as classes mais baixas por imigrantes mal remunerados.

No discurso de 2019, ela afirmou que a identidade italiana é baseada em “Deus, pátria e família”. Meloni tem uma filha de quase 6 anos com um companheiro, um jornalista de TV.

Segundo estimativa do início de julho do Instituto Ipsos, a composição dos apoiadores do Irmãos da Itália acompanha o perfil médio do eleitor italiano. Sua base tem mais homens, mais pessoas na faixa entre 50 e 64 anos, menos escolarizados, mais trabalhadores assalariados e classe média.

Enquanto se esforça para apresentar um tom mais moderado nas entrevistas recentes a veículos tradicionais, reserva às redes sociais as posições mais extremistas, como a proposta de impor um bloqueio naval no Mediterrâneo para reduzir a imigração irregular.

Apesar de ter posições eurocéticas, nas últimas semanas tem repetido que, caso chegue ao governo, pretende manter o apoio à Ucrânia e à aliança ocidental, apesar de, no passado, colecionar referências elogiosas ao russo Vladimir Putin e ao húngaro iliberal Viktor Orbán.

Além das incertezas em relação a possíveis decisões econômicas e internacionais, analistas apontam a fragilidade de seu partido para assumir cargos de primeiro nível. “O grande limite é não ter pessoas capazes no entorno. Pela incompetência e por uma visão de pessoas que não se reconhecem profundamente no Estado de Direito, algo que nem sabem o que significa”, afirma Ventura.

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